Centenário da ABC traz discussão sobre as fronteiras da ciência no amanhã

Observatório do Amanhã
Centro da palestra da Reunião Magna da ABC, com alguns dos participantes: exposição dos desafios para o futuro da ciência / Foto: Assessoria de Comunicação - ABC

O conhecimento, ao alargar e multiplicar suas fronteiras, terá muito mais questões a responder amanhã do que imaginamos hoje. Esta foi a mensagem central da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências, evento sediado no Museu do Amanhã entre os dias 4 e 6 de maio, em celebração pelos cem anos da entidade. Pesquisadores de destaque mundial debateram o futuro da pesquisa de alto impacto, principalmente no domínio das ciências da vida e da matéria.

Um dos principais temas em discussão, exemplo das fronteiras sobre as quais se debruça a ciência atualmente, foi a biotecnologia, mescla entre computação, informação e biologia – e área que, segundo John Hopcroft, professor da Universidade Cornell e vencedor do prêmio Turing em 1986, tem grande importância na intersecção entre vários saberes.

– A biologia é uma ciência capacitante para outras áreas: é chave não apenas para a medicina, mas também para a história, por exemplo. Sabemos que houve três migrações pelo estreito de Bering por causa da biologia – disse ele.

A fusão entre as ciências biológicas e outras disciplinas é, de acordo com Marcia McNutt, editora-chefe da revista Science, o paradigma científico dominante hoje e terá uma vida longa pela frente. Isto inclui o desenvolvimento de técnicas de edição genética como a Crispr-Cas9, que vem ganhando as páginas dos noticiários mundo afora por permitir o “conserto” de genes através do “recorte” de porções defeituosas de fitas de DNA. Entre as possibilidades que a técnica permite, está, possivelmente, a esterilização do mosquito transmissor da malária, acelerar a decomposição de poluentes orgânicos e revolucionar o tratamento da Aids, que poderia ser atacada de forma muito mais assertiva e com muito menos efeitos colaterais.

O auditório do Museu do Amanhã lotado durante sessão da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências / Foto: ABC

Além de ser possível editar o DNA, outra promessa da biotecnologia é a possibilidade de escrevê-lo. Em cerca de duas décadas, pode ser que pen drives e hard disks percam espaço para fitas de código genético no armazenamento de dados, principalmente em grande quantidade, da ordem de terabytes.

Henrique Malvar, cientista-chefe da Microsoft, diz que já se pesquisa a fabricação de moléculas de DNA inertes – com as quais não é possível se criar um ser vivo – para tornar a promessa possível. A técnica, para ele, representa um ganho duplo: a capacidade concentrada de se guardar quantidades massivas de informação e de armazená-las por muito tempo.

– Cada célula humana carrega a informação de todo o nosso corpo, que é da ordem de milhares e milhões de terabytes. E o DNA é uma molécula estável: pode sobreviver milhões de anos – diz.

Estas promessas não vêm, no entanto, desacompanhadas de questões éticas inquietantes. Como seria um mundo em que dados podem ser guardados virtualmente para sempre? Quem terá acesso a eles? – Que tipos de informação vamos querer apagar? – Malvar pondera. – Será possível destruir a informação se queimarmos a barra de DNA onde os dados estão gravados, seja por questões éticas ou por preferências pessoais de quem os detiver.

Mas ainda não se sabe se, na prática, a equação será tão simples. Marcia McNutt adverte que teremos que fazer face a muitas questões éticas relacionadas à biotecnologia. Não sabemos se conseguiremos colocar o gênio de volta à garrafa uma vez que o libertarmos:

– Uma vez que começamos a modificar a vida de acordo com nossos objetivos, pode haver muitas consequências não intencionadas – provoca McNutt.