Equipe de Educação do Museu do Amanhã participa do FICOO 2017

Educativo
Painel colorido com fotos da equipe de educação do Museu do Amanhã. Ao todo são 17 colaboradores.

Por Polyana Lourenço*

Eu tenho um sonho. O que acontece quando estas quatro palavras se juntam para começar um movimento consciente, engajado, empoderado? Nossa conversa é sobre isso. Pelo menos, o começo dela. Não para falarmos sobre um cenário ideal, um momento ou um lugar certo, mas sobre momentos, lugares e cenários nos quais esta frase pode ser compartilhada como um movimento interno que transborda, ou uma semente que brota em terra fértil. 

Há uma boa dose de instabilidade e divergência desde o instante em que se diz “Eu tenho um sonho” até o ponto especial em que se afirma “Esse sonho não é meu. Esse sonho é nosso”. É um percurso que envolve construir vínculos, assumir riscos e encarar conflitos. Um sonho deixa de ser meu e passa a ser nosso quando inclui cada um, e incluir não é fácil, por mais proclamado que seja. 

Walter Benjamin afirma que “os museus fazem parte, do modo mais límpido, das casas de sonho coletivo”. Temos este sonho como horizonte desde antes da nossa inauguração. Imergimos durante dois meses em dinâmicas de escuta, expressão, conexão pelo corpo, pela mente e pelas emoções. Foram encontros diários entre os educadores e demais pessoas que contribuíram conceitual e metodologicamente para a ampliação do olhar sobre a educação neste museu de alguma forma. Nada estava pronto. Nenhum percurso ou discurso fechado. Os educadores foram enchendo sua própria caixa de ferramentas a partir de suas vivências pessoais somadas às propostas da supervisão de educação. Assim, sem uma identidade uniforme, a equipe como um todo, e cada um à sua maneira, se preparou para as primeiras ações educativas em um museu de possibilidades. 

Quando o museu finalmente abriu as portas, entramos num turbilhão inimaginável em quantidade e diversidade de público. Todos os sonhos nadavam tentando não se afogar no mar de gente que esperava até quatro horas de fila, no sol ou na chuva. Vários procedimentos que foram idealizados pediam mudanças. Na primeira pesquisa de público, 12% dos visitantes estavam dentro de um museu pela primeira vez, mais de 40% não tinham o hábito de frequentar este tipo de espaço e 21% visitava museus com frequência. Não é difícil chegar a constatação de que estamos falando de um ambiente diverso social e culturalmente. Isso é motivo de celebração, requer atenção, porosidade e resiliência.  

O tempo foi um grande mestre. A cada desafio, muito debate, novas estratégias e mudanças de percurso. O estresse e o desgaste do período inicial alimentaram novos planos de ação direcionados à equipe. Para conquistar mais empatia e habilidade em lidar com divergências, por exemplo, tivemos encontros sobre Comunicação Não-Violenta aplicada ao nosso dia a dia, tanto nas relações internas quanto nas relações com o público. 

Sustentar um ambiente de convivência diverso, requer rompimento de barreiras. É um processo constante de escuta ativa, autoconhecimento e reconhecimento de privilégios que nos impulsiona a caminhar em direção à estruturas cada vez mais inclusivas. Entre as escolhas iniciais para atuar neste sentido e aprofundar as pesquisas, convidamos especialistas, ativistas e consultores. Investimos na realização de projetos com população de rua. Oferecemos aulas de LIBRAS para toda equipe de educação com uma professora surda durante o horário de trabalho. Contratamos pessoas com deficiência, refugiados, tendo a diversidade de gênero como um elemento importante. Na ocasião do Dia Internacional da Mulher, este ano, o museu se posicionou à favor da paralisação. As mulheres não cumpriram o expediente típico. Ao invés disso se reuniram, prepararam cartazes e seguiram em passeata. 

Cada uma das partes que estão sendo expostas aqui não teriam sido possíveis se não houvesse uma rede de apoio para impulsionar adiante, engajamento e autonomia. Assim, fomos construindo dinâmicas menos centralizadas, mais autônomas e interdependentes. Em exemplo disso foi a realização de um curso sobre metodologias colaborativas na construção de projetos - Dragon Dreaming - e a partir do qual adaptamos a construção das nossas ações educativas e rotinas. A formação continuada da equipe vem sendo desenhada também em conjunto, com pautas coletivas durante as reuniões e participação em eventos diversos, dentro e fora do museu, sugeridos pelos próprios educadores e também pela supervisão como elemento de autoformação subsidiado pela Gerência de Educação. 

Vivemos uma espécie de colaboratório, em um fluxo intenso de mudanças, que envolve trabalhar e experimentar um ambiente corporativo desafiador que engloba cargos, hierarquias, espaços horizontais e dialógicos. As escolhas que fazemos nem sempre são fáceis. Por vezes as decisões demoram a ser tomadas, o consenso não se dá espontaneamente, precisamos respirar fundo e transpirar muito para sustentar nossos valores e crenças, cuidando também das relações. Mas escolhemos fazer assim por saber que cuidar de si, das relações e do ambiente, são dimensões fundamentais e interdependentes para um sistema sustentável.  

O Museu do Amanhã e o Festival Internacional da Cooperação - FICOO - têm pontos importantes em comum. Um e outro existem em parceria com diversas instituições, redes e organizações dedicadas ao desenvolvimento humano sustentável e colaborativo. Podemos olhar para ambas iniciativas como se olha para um terreno. No terreno existem pessoas empenhadas em contribuir para que ali esteja fértil e favorável à vida que brota e se transforma naturalmente, incentivando um movimento que nasce internamente e transborda. Entendemos que, uma mudança genuína em si impacta diretamente as relações com outras pessoas e com o ambiente, é coletiva quando é individual, acontece dentro enquanto integra o que está fora.  

Para incentivar, apoiar cada vez mais terrenos como estes, estaremos na Feira de Boas Práticas aproveitando cada encontro com os participantes do FICOO para trocar experiências e contar mais sobre o que temos feito. Mas o nosso desejo de compartilhar e vivenciar encontros se estende para além deste momento ou deste espaço, das idéias convergentes ou divergentes. Se estende para além daquilo que é possível imaginar, ou como disse o poeta persa Rumi: “Para além das ideias de certo ou errado existe um campo. Eu encontrarei você lá.”

*Polyana Lourenço é supervisora da Equipe de Educação do Museu do Amanhã.

Para saber mais sobre o festival, acesse o site.