O dia da Baía

Observatório do Amanhã
A Baía de Guanabara e seu novo morador, o Museu do Amanhã / Foto: Thales Leite

A Baía de Guanabara é a casa do Museu do Amanhã, água sobre as quais repousa sua construção. Porém, muito mais do que um endereço, a Baía é para o Museu símbolo dos eixos éticos que o guiam – Sustentabilidade e Convivência. Como queremos viver com o ecossistema da Baía? Como pretendemos conviver com aqueles que habitam suas águas? Dois questionamentos essenciais a que o Amanhã se propõe.

No artigo abaixo, assinado por Dora Hees de Negreiros, do Instituto Baía de Guanabara, comemoramos o seu dia.

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O 18 de janeiro é o Dia Estadual da Baía de Guanabara. Foi determinado pela Lei 3616/2001, certamente para lembrar a data do vazamento de um tubo submarino que resultou em uma  enorme mancha de óleo. Por que não foi escolhido o dia 26  de março?  Nesta data, em 1975, o rompimento de um tanque do navio Tarik Ibd Ziyad derramou seis vezes mais óleo, ganhando em tamanho e causando muito mais estragos do que o acidente de 2000. Estes dois eventos, assim como outros menores, foram traumáticos para a Baía, mas não fatais. Ela conseguiu se recuperar e continua viva. 

Pior para ela tem sido o envenenamento diário levado pelos já fedorentos rios e canais de drenagem e provocado pelas toneladas de lixo e esgotos, sem nenhum tratamento. Esta poluição, sim, resultante da carência de serviços de saneamento em muitas áreas do seu entorno, está fragilizando lentamente a Baía, além de disseminar doenças nos  seus moradores.

Estudo do Instituto Trata Brasil revela mais de um milhão de moradias em áreas sem redes de esgotos na região hidrográfica da Baía de Guanabara, principalmente nos municípios da Baixada Fluminense, onde milhares de crianças e jovens são internados por ano por conta de  infecções gastrointestinais. Neste estudo, são mostrados também os muitos benefícios para a saúde, educação, produtividade e salários que seriam alcançados com o investimento em saneamento para todos, o que resultaria ainda na revitalização dos rios e da Baía.

Para a Guanabara, as grandes tragédias importam menos, pois para enfrentá-los existe sempre um esforço coletivo. Certamente ela não fará papel feio nas Olimpíadas, pois as áreas das competições esportivas são distantes dos pontos de lançamentos de esgotos e serão devidamente protegidas do lixo flutuante. E, lá do céu, São Pedro vai nos ajudar impedindo que venha aquela chuvarada que lava tudo e espalha nela a sujeira que encontra no caminho. Afinal, Deus é brasileiro.

Neste dia da Baía de Guanabara, é importante não esquecermos também do que  já foi feito para protegê-la. As indústrias, de modo geral, não jogam mais nela seus despejos como faziam até anos atrás e a cidade deixou de aterrar suas ilhas e margens para ganhar espaço como há pouco tempo. Lembramos ainda que o bairro da Urca, o aterro do Flamengo, a avenida Brasil, os campi da UFRJ e UFF, o MAM, várias obras do Niemayer em Niterói e até o novo Museu do Amanhã estão em áreas que um dia foram roubadas da Baía de Guanabara.

Por fim, é preciso mais empenho de toda a sociedade para alcançar uma Guanabara de águas limpas, com praias sempre prontas para um prazeroso mergulho de cariocas e fluminenses saudáveis e bem servidos com sistemas de distribuição de água, coleta e tratamento de esgotos e de lixo. É possível, a Guanabara merece. Assim, ela será orgulho de todos nós.

Por Dora Hees de Negreiros, presidente do Instituto Baía de Guanabara