Água: essência para o desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza

Observatório do Amanhã
Água: garantia para alimentação, higiene e subsistência é essencial para a paz e inclusão / Reprodução de vídeo

Por Meghie Rodrigues *

O mundo viu recentemente uma transição importante nos rumos do desenvolvimento sustentável global. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), criados pelas Nações Unidas para chamar a atenção de governos, empresariado e sociedade civil do mundo todo para a redução da pobreza extrema, reformularam-se em Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) durante a Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, ocorrida em setembro de 2015, em Nova York. Com os ODS, o desafio de erradicar a pobreza assume um escopo maior. Os oito objetivos do milênio se expandiram para 17 de desenvolvimento sustentável e, entre seus muito cruzamentos, um deles continua sendo crucial: o cuidado, a preservação e o manejo racional dos recursos hídricos.

Pelo menos dois dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável se relacionam diretamente à água: “garantir disponibilidade de manejo sustentável da água” e “conservar e promover o uso sustentável dos oceanos”. Garantir saneamento básico para toda a população mundial e reduzir à metade a poluição de rios não tratados até 2030 é um objetivo, sem dúvida, ambicioso. Nele estaria incluída a despoluição da Baía de Guanabara, por exemplo, que depende de ações de governança para se concretizar. Uma vez que que até as Olimpíadas não será possível fazê-lo, ganhar mais uma década e meia de prazo certamente torna a tarefa mais alcançável. Mitigar os impactos da acidificação dos oceanos e conservar ao menos 10% das zonas costeiras e marinhas combatendo, inclusive, a sobrepesca de algumas espécies também é um grande desafio para a governança global. Sem um acompanhamento ostensivo destes dois objetivos, pode ser muito difícil – ou, não seria exagero dizer, impossível – alcançar os demais ODS até 2030.

O manejo racional da água é essencial para “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável”, que é outro objetivo. Como vamos alimentar um mundo com quase nove bilhões de pessoas em menos de duas décadas? Repensar técnicas de irrigação e investir em tecnologias que reduzam as perdas de alimentos será – e já é – essencial para que este objetivo seja alcançado. Como os países enfrentarão os desafios colocados pelas mudanças climáticas ao abastecimento de água?

Água: ativo essencial para assegurar paz e inclusão

“Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades” também está na lista. A presença ou falta de saneamento básico tem impacto direto sobre o bem-estar e a saúde das populações: muitas epidemias causadas por doenças negligenciadas – a cólera que assola a Tanzânia, por exemplo – poderiam ser sensivelmente reduzidas pelo acesso expandido à água tratada. Menos óbvio, mas ainda relacionado ao objetivo anterior, é “promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”.

É possível que estejamos subestimando o papel do manejo racional da água no fortalecimento de sociedades mais pacíficas e justas. A redução da violência e da mortalidade a ela relacionada também está ligada ao acesso a recursos básicos para a sobrevivência. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) reconhece que os impactos causados pelas mudanças climáticas – secas e inundações entre elas – têm estimulado o aumento de fluxo de correntes migratórias no Sahel africano e em regiões costeiras da Ásia.

É difícil assegurar a paz e inclusão quando faltam recursos para garantir o plantio de alimentos, higiene e subsistência. E água é um ativo essencial no processo. O papel dos recursos hídricos no desenvolvimento sustentável global tem alcance e importância provavelmente maior do que nos damos conta. A água, como mostra a crise hídrica que o Brasil atravessa, não é algo passível de ser tomado por garantido. É um recurso finito que começa a dar sinais de exaustão. Transformar nossa relação de uso e consumo da água faz-se urgente se quisermos tornar o discurso político sobre desenvolvimento sustentável em realidade palpável. Nenhuma tecnologia substitui a água para chegarmos lá.

* Meghie Rodrigues é mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora do Observatório do Amanhã.