De carona em um cometa

Observatório do Amanhã
Imagem de animação sobre a missão Rosetta, com desenho da sonda em primeiro plano
Foto em preto e branco do cometa 67P/ Churyumov-Gerasimenko

Por Cássio Leandro Dal Ri Barbosa*

No último dia 30 de setembro, chegou ao fim o mais bem-sucedido projeto da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês): a missão Rosetta, que tinha por objetivo estudar de perto, mas bem de perto, o cometa 67P/ Churyumov-Gerasimenko.

Depois de passar mais de 10 anos vagando pelo espaço, a maior parte do tempo em hibernação, a sonda entrou em órbita ao redor do núcleo do cometa no dia 10 de setembro de 2014. Depois de passar três meses mapeando a superfície do núcleo, a Rosetta lançou em 12 de novembro do mesmo ano o módulo de pouso Philae para coletar dados diretamente da superfície do cometa.

O pouso do módulo não saiu como o previsto. Philae chegou com muita velocidade horizontal, o que fez com que o sistema de ancoragem não conseguisse fixá-lo sobre a superfície. Por isso, o módulo acabou quicando duas vezes, como uma pedra lançada rasante à superfície de um lago, e foi parar apoiado a um barranco, na beira de um penhasco, quase na vertical. Mesmo nessa posição pouco favorável, o equipamento coletou dados enquanto duraram suas baterias, por aproximadamente 60 horas.

Mesmo com o fim da operação do módulo Philae, a sonda Rosetta ainda permaneceu ativa, ora numa órbita mais alta, ora numa órbita mais baixa. Ela registrou as mudanças que o núcleo do cometa sofria conforme variava sua distância do Sol.

Quando a proximidade com a estrela era maior, o núcleo recebia uma quantidade maior de luz e esquentava. Por ser formado de uma grande quantidade de gelo, das mais diferentes substâncias, o cometa ficava mais ativo, com erupção de jatos de gás que se evaporavam repentinamente com o aquecimento.

Monumentos espaciais

Ainda que o 67P/ Churyumov-Gerasimenko não tenha se aproximado muito do Sol – a menor distância era quase o mesmo intervalo entre o Sol e Marte – a Rosetta flagrou mudanças incríveis no aspecto do núcleo e, mais importante, coletou dados e informações de materiais que partiam do subsolo, como amostras químicas e físicas da nuvem primordial que deu origem ao Sistema Solar.

Como o gelo estava escondido no subsolo, ele não foi alterado pela radiação solar, nem pelos raios cósmicos que incidem sobre o cometa, um verdadeiro testemunho de 4,5 bilhões de anos!

Depois de dois anos de estudos, a sonda Rosetta foi direcionada para um pouso suave sobre o núcleo. Assim que os sensores identificaram o toque com o núcleo do cometa, o equipamento foi desligado para sempre.

Mesmo o pouso tendo sido suave, sua velocidade de queda foi de pouco mais de 3 km/h, a Rosetta deve ter rolado sobre a superfície, causando danos sérios. Tanto Philae, quanto a Rosetta, são agora dois monumentos à exploração espacial e científica.

Missão de sucesso

Apesar do pouso atribulado do módulo Philae, a missão foi um sucesso do ponto de vista científico. Até mesmo nessa parte final, em que a nave coletou dados incessantemente e que ainda estão para ser divulgados.

Dá para citar pelo menos três grandes resultados já publicados que surpreenderam os astrônomos:

  1. O de que a água encontrada no cometa tem uma estrutura diferente daquela encontrada nos oceanos terrestres. Isso afundou a teoria que dizia que a água na Terra tinha se acumulado com o intenso bombardeio de cometas ocorrido no passado.
  2. Outra descoberta de destaque feita pelo módulo Philae foi a existência de 16 compostos orgânicos diferentes na poeira presente na superfície do cometa. Entre esses compostos, alguns protótipos de aminoácidos, essenciais ao desenvolvimento e a sustentação da vida.
  3. Finalmente, a terceira descoberta de destaque, foi a existência de oxigênio nos jatos de gás emitidos pelo 67P. Isso fez com que os cientistas da missão propusessem que boa parte da atmosfera da Terra teria vindo do tal bombardeio de cometas. Os cometas teriam trazido ar e não água para a Terra!

Mas outro aspecto importante da missão foi o cuidado com a divulgação de seus resultados ao público leigo. A equipe chegou a fazer um filme com atores da série Game of Thrones para divulgar alguns dos objetivos da missão e sua importância para o avanço do conhecimento.

A equipe criou também duas figuras para representar a sonda Rosetta e o módulo Philae, que volta e meia apareciam em desenhos animados.

Infelizmente não havia condições de manter a Rosetta ativa, já que ela não sobreviveria à queda de energia provocada pelo afastamento do Sol – seus painéis solares eram responsáveis por carregar as baterias. Com o término da missão, a equipe foi liberada para integrar novos trabalhos da ESA que estão em andamento. Em breve teremos mais novidades!

*Cássio Leandro Dal Ri Barbosa é doutor em astronomia pela Universidade de São Paulo e professor do Centro Universitário da FEI, em São Bernardo do Campo (SP). Além de pesquisa e ensino, atua em divulgação científica em diferentes mídias há mais de 10 anos.