Precisamos de mais mulheres cientistas, e há um jeito de se chegar lá

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Cientista Mulher

Por Meghie Rodrigues *

Nossas práticas culturais são bastante marcadas por preconceitos de gênero. A premissa, hoje quase lugar comum, demorou muitos anos para ser tema de discussão aberta em várias esferas. E na ciência a conversa ainda tem muito o que evoluir. A ideia de que “homens são de Marte e mulheres são de Vênus” não desaparece da noite para o dia, nem mesmo nos laboratórios limpos e fechados das universidades. Ou principalmente neles. 

Há pouco mais de um ano, o bioquímico Tim Hunt provocou revolta ao dizer, em uma conferência de jornalismo científico na Coreia do Sul, que o problema em se ter mulheres no laboratório é que -- você se apaixona por elas, elas se apaixonam por você e quando você as critica, elas choram. A observação deu início a uma revoada de críticas de outros cientistas (homens e mulheres) e um movimento nas redes sociais com a hashtag #distractinglysexy (‘distraidamente sexy’), com pesquisadoras postando fotos e tiradas irônicas em resposta ao que Hunt, vencedor do prêmio Nobel de Medicina em 2001, classificou como uma “piada”. 

O episódio chama a atenção pelo perfil de Hunt e pela repercussão que teve, e, infelizmente, está muito longe de ser um fato isolado. Fernanda Werneck, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e vencedora do prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência em 2016, conta que apesar de o preconceito direto e frontal parecer ter diminuído nas bancadas de laboratório, – o preconceito velado existe. As pessoas podem não falar o que pensam diretamente por você ser mulher, mas sabemos que falam, de um modo ou de outro. 

O problema de gênero nas carreiras científicas, ela observa, vai muito além da discriminação pura e simples - passa por todo um sistema de recompensas e progressão que não leva em conta as particularidades inerentes ao fato de se ser mulher. A escolha entre filhos ou carreira soa como um problema do século 19, mas está mais vivo que nunca no século 21.

– Quando engravidei, durante o mestrado, ouvi que não ia conseguir, que não ia dar conta. Com o apoio do meu marido, que também é cientista, terminei o mestrado, o doutorado e continuei fazendo pesquisa – conta Fernanda.  – As pessoas acham que sua vida para se você resolve ter uma criança – concorda Elisama Santos, também vencedora do prêmio e professora de Química na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

E no Brasil?

O desequilíbrio de gênero na escolha da carreira começa antes do vestibular e é bem detectável no Ensino Médio. Pesquisadores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná publicaram um estudo, em 2014, no qual perguntaram a 350 estudantes em vinte escolas brasileiras sobre se gostariam de ser cientistas ou não. Menos de 20% das meninas e quase 30% dos meninos se mostraram atraídos pela carreira científica. Ambos os números são baixos - o ponteiro da balança, no entanto, continua pendendo mais para um lado que para outro.

Por isso, não admira que no Brasil, mulheres sejam apenas pouco mais de 30% dos graduados em Ciências e Engenharias, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A porcentagem, de 2013, dobra quando as áreas são Educação, Humanidades e Ciências Sociais. 

A diferença chama ainda mais atenção quando se considera que o número de mulheres no ensino superior - nos cursos de bacharelado, licenciatura e de tecnólogo - é relativamente maior que o de homens que concluem a graduação no país. O Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) dá conta de que, em 2015, elas somaram quase 550 mil entre os graduados, ao passo que entre os homens, o número foi pouco menor que 370 mil. 

Pedras no caminho

O gargalo pode não necessariamente estar no acesso à carreira científica. – O problema é a permanência na carreira. É preciso ter muita persistência – conta Fernanda Werneck. A observação faz muito sentido quando se considera que a fase em que mulheres desistem da carreira científica é justamente o pós-doutorado, um estágio já avançado da vida acadêmica. 

Outra vez, a escolha por ter uma família pesa como impeditivo para que elas continuem a progredir para outras posições na hierarquia das universidades: a produtividade e o ritmo de viagens que muitas destas posições exigem são incompatíveis com os papeis atribuídos no cuidado doméstico. O fato de não haver licença-maternidade remunerada durante mestrado, doutorado e pós-doutorado provoca um desnível que faz com que o abismo entre gêneros seja ainda maior. – Somos uma parcela pequena nos cargos de chefia e diretoria nas universidades - que é um lugar onde não deveria haver esta desigualdade. A academia reproduz o sistema cultural dominante – pondera Elisama Santos. 

Para as pesquisadoras, mais do que discutir o machismo ainda presente no mundo científico, é preciso colocar o funcionamento do sistema acadêmico em questão, em que pesam esquemas de financiamento e prestígio no plano simbólico. Neste sentido, elas são categóricas em afirmar que prêmios como o “Para Mulheres na Ciência” são um grande estímulo. Para Elisama, – ajuda a vencer barreiras – e, para Fernanda, – chama a atenção para a questão de gênero na ciência. 

A versão brasileira do prêmio “Para Mulheres na Ciência” acontece todos os anos, desde 2006, e é promovida pela L’Oréal em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco/Brasil) e Academia Brasileira de Ciências (ABC). Em 2016, a cerimônia de entrega da premiação aconteceu no Museu do Amanhã, no dia 20 de outubro, última quinta-feira. 

 

 Meghie Rodrigues é mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora do Observatório do Amanhã.