Santos Dumont: invenções geniais também com os pés no chão

Exposições Temporárias
O “transformador marciano”, que auxiliava na subida de montanhas de neve: uma das últimas invenções de Santos Dumont / Concept art by Luiz Pagano

Por Emanuel Alencar*

Conhecido internacionalmente pelo voo de seu 14bis, há 110 anos, Alberto Santos Dumont também se destacou por invenções bem menos lembradas – mas nem por isso menos importantes. Foi o autor, por exemplo, de um modelo que consagrou o uso do relógio de pulso; o primeiro a desenvolver um hangar e a trazer um carro ao Brasil. Bolou um sistema pioneiro de chuveiro de água quente; instituiu, em Paris, a primeira corrida de mototriciclos e criou um um esqui mecânico para escalar montanhas. Da mente criativa do inventor mineiro surgiu até um aparelho bastante inusitado, com o objetivo de ofertar petiscos diante de cães de corrida e promover a rapidez dos animais.

Desses inventos, o mais disseminado é, sem dúvida, o relógio de pulso. Se não foi o criador do objeto, Dumont certamente merece registro por tê-lo difundido como item quase obrigatório no dia a dia. No início de século XX, a ideia de usar relógio no pulso apenas começava a se desenvolver. Em 1896 a suíça Longines fez relógios para damas. A também suíça Omega, em 1902, lançou modelos femininos e só em 1905 passou a fazer modelos masculinos. Mas havia forte reação contrária do mercado: no geral, as peças não tinham boa aceitação. Até que, em 1904, a Cartier fez um modelo seguindo a concepção de Santos Dumont. Já bastante famoso à época, o inventor precisava de um relógio prático que lhe possibilitasse cronometrar os voos. Era um modelo que trazia inovações no desenho e abriu o mercado alguns anos depois, em 1911.

– O modelo Santos trazia inovações no desenho e transformava uma joia num instrumento de medida do tempo prático e funcional. Transforma um relógio no pulso num relógio de pulso – enfatiza o biofísico Henrique Lins de Barros, um dos maiores pesquisadores sobre Santos Dumont no Brasil e consultor científico da exposição temporária do Museu do Amanhã "O poeta voador, Santos Dumont". 

Antes mesmo de o relógio de pulso ser disseminado, Santos Dumont criou o hangar. Em 1900, ele era a única pessoa capaz de voar num dirigível. Como seus voos eram quase diários e era muito caro encher o balão de hidrogênio para um novo voo, o brasileiro construiu um hangar para armazenar o aparelho sem necessidade de esvaziá-lo. Depois construiu um novo hangar em Mônaco. Alguns outros vieram.

– Ele criou o hangar na concepção que usamos hoje: local para manter um aparelho em condições seguras. O hangar não é somente um galpão, mas um local que mistura oficina, local de manutenção, vistoria e abrigo – explica Lins de Barros.

Na “Encantada”, residência de verão em Petrópolis (RJ) projetada pelo inventor e construída pelo engenheiro Eduardo Pederneiras, em 1918, Santos Dumont também inovou. O banheiro do imóvel possui um chuveiro com aquecimento a álcool, feito com um balde perfurado dividido ao meio, com entradas para água fria e quente, e duas correntes de dosagem da temperatura. E os degraus recortados, em forma de raquete, para facilitar os movimentos de subida e descida, evitando tropeços. O primeiro automóvel de motor a explosão que o Brasil ganhou foi um presente de Santos Dumont. Em 1891, em Paris, o brasileiro compra Peugeot routière, de três cavalos e meio de potência. Foi um dos primeiros fregueses da grande fábrica francesa. Seis anos depois, trouxe o modelo para o Brasil.

Uma de suas últimas invenções foi uma peça chamada “transformador marciano”. Lançada em 1929, na Suíça, a máquina tinha o objetivo de auxiliar praticantes de esqui a subir montanhas de gelo. Dá para imaginar que, num tempo em que não havia teleféricos, a peça foi de grande ajuda.

* Editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Com informações de Henrique Lins de Barros, consultor científico da exposição "O poeta voador, Santos Dumont"