Voar é com os Poetas

Exposições Temporárias
Foto: Domínio Público

Por Luiz Alberto Oliveira *

Sanford Kwinter, filósofo da arquitetura e do desenho de projeto (design), oferece uma perspectiva instigante acerca do que constitui uma inovação. Segundo ele, a condição para que uma dada propriedade de um material ou um certo aspecto de um fenômeno sejam convertidos em um objeto técnico, ou seja, um artefato seja criado, é que as dimensões que os caracterizam sejam trazidas ao alcance da percepção e da manipulação humanas. Dito de outro modo: para que uma invenção se realize, comprimentos e durações que eram até então alheios à experiência humana típica precisam ser engajados em uma ação formadora que lhes confira alguma funcionalidade.

Em um primeiro sentido, esta observação parece óbvia: por demasiado extensos ou prolongados, não há utensílios propriamente astronômicos ou geológicos. Mais interessante é notar que, assim sendo, o aumento da capacidade de sondar fenômenos em escalas inéditas, ao permitir que componentes e processos até então desconhecidos passem a ser explorados, fornece a base para que todo um domínio de novas formas comece a ser operado. O conceito de átomo, ou unidade elementar de materialidade, foi elaborado na Antiguidade grega, mas somente se tornou um fato empírico a partir das teorizações de Albert Einstein e das medições de Jean Perrin, em pleno Séc. XX. Estamos hoje convertendo o conhecimento básico sobre o Micromundo aí inaugurado em mais e mais desenvolvimentos, cada vez mais revolucionários; o milionésimo de grama, o bilionésimo de metro e o trilionésimo de segundo são hoje escalas suscetíveis de intervenção técnica.

Em resumo, um inventor faz ingressar no mundo humano uma modalidade nova de objetos, qual seja, de ritmos, tamanhos e intensidades. Um grande inventor, porém, é como um poeta: muda o sentido de palavras, transforma todo o campo das experiências possíveis, reformata a própria humanidade. Tal é, sem dúvida, o caso de Alberto Santos Dumont. Pois ao fazer do verbo voar uma ação técnica plausível, agregou a dimensão da verticalidade ao espaço dos movimentos, quer dizer, permitiu que nos deslocássemos no interior de volumes, e não mais apenas sobre a superfície dos solos e águas. A visão alargada desde as altitudes, antes laboriosamente conquistada por montanhistas, torna-se doravante, que paradoxo, privilégio comum; legível a escritura até então secreta de elevações e vales, canions e colinas, sinclinais e anticlinais, do panorama do relevo; as ascenções e mergulhos aéreos, que só podiam ser sonhados, realizam-se nos loopings, himmelmans, glissandos e parafusos dos ases e acrobatas aéreos; a esfericidade mesma da Terra, antes suspeitada na partida dos navios no porto, pode agora ser testemunhada diretamente, pela vista nua, no horizonte que se encurva, e desde aqui se insinua o limiar de uma nova infinitude, planetária, sideral. Hoje, a cada momento, há cerca de 250 mil pessoas, os passageiros embarcados em linhas aéreas regulares, que estão em lugar nenhum, já que se encontram, literalmente, no ar. Voar, é com as gentes!

É fascinante examinar o modo pelo qual essa transformação prodigiosa do estatuto humano, de pedestre a pássaro, se desenvolveu ao longo do trabalho criativo de Santos Dumont. Intuição de artista, destreza de artesão, arrojo de pesquisador, praticidade de engenheiro - tantos e tão diversos atributos se combinaram na incrível série de avanços sucessivos e cumulativos que, no prazo quase absurdamente exíguo de dez anos, o tornaram de maestro dos aeróstatos em capitão dos aeroplanos. O uso de materiais inesperados, sedas, peças de bambu, cordas de piano; o conhecimento efetivo das regras práticas da aerodinâmica dos balões e, posteriormente, dos aviões, quando a teoria ainda patinava com a presumida incapacidade que objetos “mais pesados do que ar” teriam para se deslocar (sim, posição manifesta por ninguém menos que Lord Kelvin, secretário da Royal Society britânica e um dos mais notáveis cientistas de seu tempo, em 1895!); a aplicação da solução de potência motriz compacta encontrada para impulsionar os dirigíveis - o motor a explosão - também nos aeroplanos; a pesquisa empírica de modelos hidrodinâmicos para estudar o equilíbrio aerodinâmico, a água como simulação do ar; a definição do manejo dos controles do vôo como extensões dos membros e movimentos do corpo, inspiração soberba que, como observa Miguel Nicolelis, faz da inusitada ação de voar um afazer tão integrado ao cérebro quanto pintar ou escrever... Aí encontramos sínteses, deslocamentos, amálgamas, recombinações, temperados tanto por persistência quanto por improvisação – de fato, os elementos operativos de um conceito abrangente de inovação cuja inegável atualidade não cessa de nos surpreender. Moderno no mais exemplar dos sentidos, o de contemporâneo constante do porvir, eis que desse processo emerge um tipo original de criador: o inventor-em-série. Santos Dumont, o Pai da Inovação.

Para que a singularidade deste pioneiro da atmosfera recebesse um perfil igualmente renovado, seria indispensável a atuação de uma equipe de produção com decidida capacidade de decolar. Para conceber e realizar a mostra O Poeta Voador – Santos Dumont, abrigada no espaço de exposições temporárias do Museu do Amanhã, a Fundação Roberto Marinho convocou o renomado escritório de Gringo Cardia, lastreado por inúmeras participações na cena cultural brasileira, com a colaboração do biofísico Henrique Lins de Barros, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e uma das maiores autoridades mundiais em Santos Dumont e sua obra.

Então, venham bater as asas, abrir o gás, girar as hélices! É com alegria de criança que vai fazer o primeiro vôo que o Museu do Amanhã convida seus visitantes a embarcar nesta jornada de exploração da imaginação ilimitada deste grande inovador brasileiro. Ali estão o Sol, e as andorinhas, e os ventos, e estão à nossa espera.

* Luiz Alberto Oliveira é curador do Museu do Amanhã