A ciência brasileira na Camada de Ozônio

Observatório do Amanhã

Por Tiago Zenero*

No dia 16 de setembro, celebramos o Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozônio. A data comemora o aniversário do Protocolo de Montreal sobre substâncias destruidoras do ozônio, chancelado em 1987, no Canadá. A ciência brasileira tem um papel de destaque para o êxito desse protocolo - que é o único ratificado por todos os países - coletando dados sobre a camada de ozônio, monitorando efeitos da radiação ultravioleta sobre o ambiente e os humanos e ainda colaborando com pesquisadores de outros países.

A descoberta de um problema global
Para que a discussão sobre a camada de ozônio tomasse proporções globais e se materializasse em um Tratado ambiental internacional, em 1974, pela primeira vez, os cientistas Mario Molina e Sherwood Rowland alertaram a comunidade científica sobre a rarefação do ozônio decorrente de algumas substâncias sintéticas lançadas na atmosfera, as chamadas SDOs (substâncias que destroem a camada de ozônio). Essa degradação da camada de ozônio incorreria em riscos para a saúde humana e de diversos outros seres vivos devido à sua função fundamental de filtrar os raios solares ultravioletas do tipo B (UVB) que incidem sobre o planeta. Foi preciso que os pesquisadores coletassem novos dados e desenvolvessem estudos mais aprofundados para convencer os mais céticos e, assim, em 1985, o mundo se reuniu na Convenção de Viena para debater formalmente o assunto.

Acompanhando o movimento científico iniciado por Molina e Rowland, o Brasil começou sua própria produção de dados sobre a camada de ozônio. Na década de 1970, o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE) recebeu da NASA (Agência Norte-Americana Aeroespacial) um espectrofotômetro de Dobson, cuja função consiste em coletar dados sobre ozônio a partir do solo terrestre. Essa doação contribuiu para que o Brasil iniciasse uma série histórica de coleta dos dados, bem como o monitoramento do novo fenômeno recém descoberto.

Dois anos depois da Convenção de Viena, veio o Protocolo de Montreal, que, hoje, se consagra como o único tratado ambiental ratificado por todos os países. Graças aos esforços conjuntos da comunidade internacional, por meio dele, já foi possível eliminar o consumo de mais de 98% das SDOs.

A participação da ciência brasileira para a recuperação da Camada de Ozônio
O sucesso do Protocolo de Montreal se deve, em partes, pelo engajamento da comunidade científica, incluindo a brasileira, o que levou o país a desenvolver outras metodologias, além do Dobson, para aperfeiçoar o trabalho científico em curso. Com o apoio da NASA e de outras agências espaciais internacionais, o INPE agregou aos seus laboratórios equipamentos que capacitam o Brasil na medição do ozônio estratosférico a partir de dados de satélite, com base em coleta terrestre e por meio de balões atmosféricos para mensurar a concentração de ozônio dentro da própria camada.

Nas quatro décadas que se seguiram à descoberta de 1974, o Brasil foi, e continua sendo, o único país da América Latina a manter uma série histórica de dados sobre a camada de ozônio. Com duas bases localizadas nos estados do Rio Grande do Norte e do Rio Grande do Sul, a comunidade científica brasileira monitora os efeitos da radiação ultravioleta e suas consequências para o homem e o meio ambiente. Esses estudos permitem o acompanhamento da variação periódica de incidência de radiação ultravioleta, bem como colaboram para o banco de dados global sobre concentração do ozônio estratosférico, constituindo-se em informações relevantes que auxiliam na busca por soluções sustentáveis para um problema global.

Na Universidade Federal de Santa Maria, um grupo de pesquisa se dedica ao estudo de um fenômeno conhecido por “efeitos secundários do buraco da camada de ozônio”. Tal fenômeno ocorre predominantemente na primavera, quando se inicia o aumento da incidência de radiação solar no hemisfério sul. Essa radiação gera maior quebra de moléculas de SDOs liberando mais átomos de cloro na alta estratosfera, o grande vilão responsável pela quebra de moléculas de ozônio e, por consequência, pela rarefação da camada por ele formada. Somado a isso, as massas de ar que se movimentam de forma mais acentuada nessa estação empurram o cloro para a estratosfera de regiões tropicais fazendo com que o buraco da camada de ozônio se desloque para além da Antártica, podendo atingir a região sul do Brasil, além do Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Cada um desses eventos pode perdurar por dois ou três dias, causando exposição intensa da população à radiação e podendo ocasionar, inclusive, quebras de safra na agricultura. Os pesquisadores buscam agora uma metodologia para prever esses acontecimentos e alertar a população sobre sua chegada e suas consequências.

O Brasil, por meio de melhorias constantes no processo de coleta de dados, mostra-se uma referência na América Latina no que concerne ao desenvolvimento de pesquisas científicas. Apoiou o Chile a desenvolver capacidade técnica para medição do ozônio estratosférico, realizou um programa na Antártica para melhor observar o buraco na camada de ozônio e suas consequências, possui parceria de cooperação internacional com diversos países para observação dos efeitos secundários do buraco na camada de ozônio, e conta com uma equipe técnica qualificada, que atua no processo de medição do ozônio há mais de 40 anos. 

Desafios para o futuro
Este talvez seja o maior desafio para o continuado monitoramento do ozônio estratosférico no Brasil e, consequentemente, para o futuro das pesquisas acadêmicas sobre o tema: manter um corpo científico no país especializado na produção de dados e engajado no avanço das pesquisas sobre a camada de ozônio. Apesar das grandes capacidades desenvolvidas e da relevância do assunto em questão, as equipes de pesquisas brasileiras vêm diminuindo a cada ano devido a aposentadorias de pesquisadores sêniores e à falta de incentivo técnico e financeiro que engaje as novas gerações de cientistas a aderirem à causa e nela seguirem carreira. 

As ciências brasileiras contribuem há décadas para entendermos, evitarmos ou mitigarmos problemas ambientais em escala local, regional e global. Não apenas o Protocolo de Montreal se baseia em dados científicos para tomada de decisões e implementação de projetos pelos Estados partes, mas toda a sociedade se beneficia dessas pesquisas para o efetivo combate aos efeitos da radiação ultravioleta e para a maior compreensão do comportamento da camada de ozônio, que, pelas melhores projeções, se recuperará apenas em meados do século XXI. E é frente a essa necessidade que se espera a perenidade das pesquisas acadêmicas brasileiras e o engajamento de novas gerações de pesquisadores, essenciais na construção de um planeta sustentável para as presentes e futuras gerações.

*Tiago Zenero - Consultor em Comunicação do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs / Ministério do Meio Ambiente
 

O Museu do Amanhã é um museu de ciências aplicadas que explora as oportunidades e os desafios que a humanidade terá de enfrentar nas próximas décadas a partir das perspectivas da sustentabilidade e da convivência. Inaugurado em dezembro de 2015 pela Prefeitura do Rio, o Museu do Amanhã é um equipamento cultural da Secretaria Municipal de Cultura, que opera sob gestão do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG). Exemplo bem-sucedido de parceria entre o poder público e a iniciativa privada, o Museu do Amanhã já recebeu mais de 4 milhões de visitantes desde a inauguração. Tendo como patrocinador máster o Banco Santander, a Shell como mantenedora e uma ampla rede de patrocinadores que inclui empresas como IBM, Engie, Lojas Americanas, Grupo Globo e Renner, o museu foi originalmente concebido pela Fundação Roberto Marinho.