Biodiversidade em risco nas Américas | Museu do Amanhã

Biodiversidade em risco nas Américas

Observatório do Amanhã
Imagem aérea do Rio Juruá, na Amazônia
Foto do pássaro sete-cores-da-amazônia

Carlos Alfredo Joly*


No final de março deste ano a Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) lançou o Primeiro Diagnóstico sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos para a região das Américas. As conclusões deste gigantesco trabalho, desenvolvido por cerca de 100 especialistas ao longo de três anos, são, no mínimo, alarmantes.

O continente americano, incluindo o Caribe, é uma das regiões mais ricas do mundo em termos de biodiversidade e serviços ecossistêmicos, abrigando sete dos 17 países considerados megadiversos, a maior floresta tropical e um conjunto incomparável de ambientes de água doce – entre rios, lagos, represas e áreas úmidas.

Abrigamos também cerca de 40% da capacidade mundial de produção de produtos baseados na natureza, que são essenciais para garantir segurança alimentar, segurança hídrica, segurança energética, serviços de polinização, de regulação climática, bem como serviços não materiais como continuidade cultural e refúgio espiritual. Considerando-se apenas a parte terrestre do continente, o valor destes serviços ecossistêmicos é estimado em R$ 80 trilhões (US$ 24.3 trilhões), o equivalente a todo PIB da região.

Entretanto, tanto a biodiversidade como os serviços ecossistêmicos que dela dependem, estão sob fortíssima pressão. Pelo menos 65% dos serviços estão declinando, enquanto que 21% estão declinando de forma muito acelerada. Cerca de ¼ das 14.000 espécies de grupos taxonômicos bem conhecidos está sob risco de extinção, em maior ou menor grau, tanto em ambientes terrestres, de água doce como marinhos. Dentre as espécies endêmicas a ameaça de extinção pode chegar a 40%, no caso das espécies caribenhas. No continente como um todo, essas perdas já estão afetando os serviços ecossistêmicos associados a provisão e proteção dos recursos hídricos, bem como os associados com a produção de alimentos, inclusive as culturas de subsistência.

Em 2005, a Avaliação Ecossistêmica do Milênio já tinha acendido a luz amarela quanto à saúde dos ecossistemas do planeta. Infelizmente este alerta não foi levado em consideração nas últimas duas décadas e, desde o final do século XX, os problemas só se agravaram. 

Crescimento populacional, migrações, mudanças climáticas, modelo de crescimento econômico e fragilidade da governança ambiental, são os principais fatores antropogênicos indiretos, que impactam biodiversidade e serviços ecossistêmicos no continente. O PIB da região cresceu seis vezes desde 1960, o que representou uma melhora na qualidade de vida de milhões de habitantes da região, mas infelizmente, devido ao modelo predatório de crescimento econômico, representou também um aumento desproporcional da conversão e fragmentação de habitats, geralmente para produção não sustentável de commodities para exportação, tais como a soja e a carne.

Nas Américas encontramos uma diversidade de modelos de governança da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, inseridos em uma miríade de realidades socioeconômicas e culturais. Muitas delas visam reduzir as pressões dos fatores de degradação ambiental. Mas na maior parte das vezes a política ambiental se subordina às políticas econômicas de curto prazo, e falta a integração necessária para a implantação de um modelo de desenvolvimento sustentável, que garanta uma melhora na qualidade de vida sem explorar de forma predatória a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos. Visões imediatistas para reduzir, por exemplo, a inequidade muitas vezes comprometem recursos das próximas gerações.

O relatório também identifica decisões políticas que, se tomadas imediatamente, podem reverter este quadro alarmante. Por exemplo, a restauração de áreas degradas em grande escala, como a proposta pelo Brasil no Acordo de Paris, e a mudança dos padrões de produção e consumo, adotando dietas menos calóricas e evitando o desperdício de alimentos.

Mas a solução mais efetiva seria colocar biodiversidade e serviços ecossistêmicos associados à qualidade de vida no centro das decisões das políticas de desenvolvimento econômico dos países.

* Carlos Alfredo Joly é professor titular do Instituto de Biologia da UNICAMP. Biólogo, ele é membro da Academia Brasileira de Ciências e do Painel de Experts da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).
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